terça-feira, 3 de abril de 2012

Ciao.

Quando você chegou ainda era fim de tarde. Sentou do meu lado no banco, elogiou o pôr-do-sol, me ofereceu chocolate e perguntou quem seria a pessoa ideal pra mim. Eu disse que apreciava sinceridade. A resposta não agradou. Só isso? Expliquei que não me sentia mais tão exigente quanto há alguns anos atrás. Eu poderia ter dito diversas qualidades e adicionado cavalo branco, mas isso tudo foi extinto, está sendo. Hoje só quero e prezo pela verdade. A verdade de dizer o que sente, dizer que ama se for de coração, ou pedir para ir embora porque as coisas mudaram. Mas, quem é assim hoje em dia? Quem é verdadeiro consigo mesmo? E com os outros? Por que será que é tão difícil dizer a verdade? É falta de experiência ou de caráter? A escassez disso trouxe consequências. Toda verdade dita na cara é tida como arrogância, despeito, maldade. Toda verdade dita na lata é faca afiada, arma apontada no meio da cara. Mentiras confortam, afagam os cabelos, acariciam o rosto depois de um longo dia de trabalho. A verdade mata, a mentira salva. No fim, disse que estava mentindo, que eu não era exigente coisíssima nenhuma. Não acreditei. Alguém que mantém dois namoros - sem que os envolvidos saibam - ao mesmo tempo não merece dar qualquer opinião sobre verdade, e tampouco sobre caráter. Me levantei e fui embora antes que deixasse de acreditar de vez. Antes que começasse a acreditar que sim: verdades não rendem mais bons frutos.

domingo, 25 de março de 2012

Minhas amizades morrem na praia.

Não tenho um círculo de amigos. No máximo, um triângulo e olhe lá. Não é de hoje que eu sei: minhas amizades morrem na praia. A culpa é minha? Que não me disponho a visitá-los, que tenho preguiça de construir pontes, que sou tímido, que não sinto vontade em criar novas relações. A culpa são dos outros? Que não me procuram, que não dizem sentir falta, que não fazem convites, que não parecem estar vivos. Minha ou deles, não sei. Eu sei de uma coisa: sinto falta. Sinto falta de uma mesa redonda, jogar conversa fora, rir de doer o maxilar. De uma amizade que eu tenha certeza que vai durar. De uma amizade que é tão forte quanto amor. Porque eu sou ótimo como amigo, quem já precisou de mim sabe disso. Eu cancelo qualquer compromisso, falto trabalho e me disponho vinte e quatro horas se for preciso. Chamo para ver filme, dar uma volta de carro, qualquer coisa. Não vou dizer que não sou valorizado. Mal aproveitado? Talvez. Pensando bem, talvez eu esteja andando na pista errada. Recusando convites de quem acho passageiro, e dizendo sim para quem talvez nem seja pra sempre. Temos que nos dispor a quem se dispõe pra gente, não é verdade? Só quero alguém para me ouvir no final do dia. De forma natural, sem que pareça obrigação. Sem que soe como "vamos chamar ele pra sair, o coitado é sozinho demais." A partir de hoje é o inverso: só vou estar perto de quem quer estar perto de mim.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Às vezes eu só quero descansar.

Capítulo um: Tirei um tempo pra mim. Eu, o mar, as trilhas, a água na garrafa, maçãs, uvas, pés de manga, jabuticaba. Céu azul, vidraças, livros na cabeceira, na cama. Chocolate quente, filmes, compras, utensílios domésticos, ovos de páscoa, por que não? Uma volta no centro da cidade, o entrar e sair de lojas, milkshake de capuccino. Os olhos lacrimejando às sete da manhã, a cara amassada, a roupa ainda por ser engomada. Meia hora esperando o ônibus, fones de ouvido, viagem curta. Eu indo em direção ao trabalho. Eu indo em direção a faculdade. Eu, sozinho, solitário, recluso, quieto, reflexivo, fechado, fora de linha, indisponível, e feliz, acredite se quiser. Capítulo dois: Você é melhor longe, você é melhor perto, você é melhor apenas sendo admirado na arquibancada. Agora você, você é melhor pra qualquer um, menos pra mim. Não se julga um livro pela capa, não se julga a felicidade alheia por uma publicação no facebook. Tudo isso pode ser sobre você, sobre mim, sobre nós, sobre ninguém em especial. Eu não quero ter que explicar meus motivos, eu não quero a obrigação de sair para encontrar alguém no meio dia, piscina no domingo, balada no sábado, filme na sexta, jantar na segunda. Meia hora deitado com ele era tudo, hoje não é nada, perca de tempo. Aquilo que a gente ouve, é verdade mesmo: é necessários dias e dias para construir uma imagem "perfeita", e apenas um passo em falso para que todo um altar venha abaixo. Capítulo três: Caros terráqueos, entendam, eu só quero descansar um minuto.

O que é importante discutir?



Não quero viver em um mundo, onde um caso de atropelamento ganha mais destaque, que um caso de bullying. O atropelamento vai ser resolvido, não adianta ficar discutindo com a vizinha na beira da calçada. Há juízes, policiais, pais, vários envolvidos. Não quero viver em um mundo, onde a falta de um jogador no treino, vira bate-boca de fim de tarde, enquanto mulheres sofrem nas mãos de maridos violentos e sem compaixão. Vivemos em um mundo onde ninguém liga quando arremessa um saco de lixo pela janela, mas que todos entram em desespero, quando esse lixo pára na porta de casa, depois de uma enchente. É preciso prevenir, nem sempre o remédio consegue conter a contaminação. É preciso estudar, para não ser passado para trás, ser o último da fila, no banco, no refeitório, na vida. É preciso ser instruído, ter a cabeça aberta e a mente fértil. Para justamente poder discutir aquilo que vale a pena: violência, a saúde precária no Brasil, discriminação, problemas ambientais, abuso infantil, e etc. Deixar de lado as notícias de famosos, futebol, qualquer coisa supérflua. Essa parte que excede deixamos para aquele domingo a noite, aquela conversa regada a bebida, despretensiosa, uma vez por semana. Alguns assuntos são urgentes, precisam ser resolvidos pra ontem, as ações do governo não são remédios, a prevenção somos nós: seres humanos.

sexta-feira, 16 de março de 2012

#poetizando

Voa, voa para bem longe de mim. 
Para que eu possa esquecer do teu canto e do teu perfume. 
Esconda-se onde eu não possa ver. 
Arruma uma casinha qualquer. 
Madeira, barro, palha, não importa. 


Fuja, só fuja. 
Para que eu possa esquecer do seu colo, 
olhos e dentes amarelos. 
Se volta em um dia, um ano, uma hora, não importa. 
Ainda não desfiz a tua cama.

Teu travesseiro permanece quente.
Há fios de cabelo no lençol. 
Você disse que voltaria, e eu acredito. 
Mas se fica, seja feliz, haverão outros cantos a me encantar, eu sei. 
Mais que tu, meu bem. E até quem sabe, mais de mim.

Reclusão.


Defina o momento no qual você se encontra: ajuste. Apenas isso. Ajuste. Ajustando, dando atenção para o que deixei de lado em função dos outros, dos problemas dos outros. A ordem é de reclusão, e isso vale para todos, sem exceções. Se fechar. Não ver, não sentir, não deixar. Não, não, menos sim. Chega um momento em que você precisa parar de ceder. Ceder ao pecado da carne, ceder a solidão disfarçada de companhia. Não, dizer não, a partir de hoje, agora. Quero me recuperar. Ainda há muita pancada, e eu preciso estar bem, apoiado, com forças suficientes para não cair. Mas eu preciso aprender sozinho. Não terá barras de ferro para eu me segurar, ou braços, ou mãos, ou colos. A ordem da vez é cristalizar, se refugiar. Ir bem longe dentro de mim. Aonde ninguém possa enxergar. É melhor assim. Dói menos. Já se sentiu sozinho a dois? Cama, cobertor, livros, filmes e chocolate. A duração disso tudo? Por tempo indeterminado.