quarta-feira, 25 de julho de 2012

Feliz dia do "Droga, cadê o papel e a caneta?"

Minha inspiração fez viagem sem volta, botou o pé na estrada, chutou o pau da barraca, foi sambar na lapa, não sei onde ela foi parar, desculpa, não sei. Justamente quando caminhava pela cidade, exatamente às nove horas da noite, me veio um conto inédito em frame e eu não tinha papel nem caneta por perto. Memória péssima, não gravei nada. Lembrei do dia em que eu fiquei preso em um texto sobre as minhas férias. Eu não havia viajado, não havia feito nada além de três coisas: comer, ver tv e dormir. Não passei da primeira linha, a exigência era no mínimo vinte. Entrei em estado completo de cólera, aflição. Estávamos eu, a folha de caderno, o lápis e ninguém sabia para onde ir exatamente. Eu: triste por não ter feito valer a pena meus trinta dias de ausência dos livros de química. A folha de caderno: mais intacta que a virgem maria. O lápis: rabiscando qualquer desenho fajuto, esquisito. Decidi ir no dia seguinte com a folha em branco. Estava prestes a receber um zero, quando lembrei de uma história que vi na TV. Troquei os personagens, sujeitos, advérbios de tempo e em poucos segundos transformei meus trinta dias de apatia, em algumas horas de entretenimento. A história não era minha e ninguém sabia, ou veio a saber até hoje. E quem nos lê sempre acha que tem sangue nosso respingando em alguma palavra, ora suja, ora santa. Só quem escreve sabe como dói. Só quem se coloca horas e horas diante de uma folha, sabe como é enlouquecer em ponto morto.  Não adianta forçar as idéias, a inspiração só surge quando a gente aparenta uma conformidade mórbida.

[25 de Julho, dia do escritor.]

domingo, 15 de julho de 2012

Viver mais que ontem.


Enquanto você se preocupa excessivamente com os problemas, a vida corre. Corre e não dá passos para trás. E nem pára. A vida nunca pára. Problemão. Dias curtos. Trabalho, faculdade, buscar filho na escola, um beijo na esposa, almoçar, tomar café-da-manhã, jantar, pagar contas e ainda fazer uma hora de esteira na academia. Haja fôlego. Sensação de que vou precisar de uma outra vida. Adicional. Essa não é suficiente. Que loucura. E ainda tem pessoas que conseguem adicionar nesse bolo de atividades: planejar um assalto, se vingar, falar da vida alheia, língua afiada, farpas saindo pelos dedos. Quanta coragem. Quanta burrice. E se um dia eu cair na mesmice, que me matem ou me joguem de um precipício. Que a rotina caia em mim, se essa façanha ela conseguir. Quero - e trabalho nisso constatemente - poder viver sentimentos novos todo santo dia. Sem nome, sem definição exata. Apenas um sorriso bobo e eu entrejo os pontos. Sensações estranhas, embrulhos no estômago, arrepios na nuca. Deveríamos mesmo era ia atrás de viver um pouco mais. E esquecer as desavenças, os problemas, as vaidades. Enlouquecer, observar, digerir com calma. Amar, receber carinhos sem fim, e amar mais um cadinho se der. Na medida certa, no momento oportuno. E se deixar crescer um pouco a cada dia. Através dos erros, das desculpas esfarrapadas, dos tiros que saem pela culatra. Viver é correr todo dia atrás de uma felicidade que não está nem aí para ser encontrada. E não está nem aí, nem aqui, nem escondida em lugar nenhum. Viver é felicidade, e felicidade é ver você aí tomando esse chá com cara de sono. Putz, se eu soubesse que a vida seria curta, eu teria vivido bem mais que ontem. Calma aí moço, ainda temos tempo de virar o jogo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pessoas rasas e pessoas fundas.

Nos domingos não fujo a regra: calorias provenientes de porcarias, filmes e corpo quase adormecido na cama. Mas quando se precisa escrever alguma coisa, dificilmente alguma história irá adentrar o portão da minha casa, bater na porta e percorrer facilmente pelos meus dedos. Aproveitei o ensejo de ser – praticamente – obrigado a ir a um aniversário, para tentar colher alguma coisa, pescar qualquer trecho de conversa, acontecimento que fizesse o meu cérebro criativo voltar a funcionar. Para o meu deleite, o lugar era melhor que a encomenda: piscina, campo de futebol, grama e árvores por todos os lados. Li um capítulo do livro Um dia [David Nicholls], que é atualmente meu livro de cabeceira, e resolvi botar um short (visto que esqueci a sunga) e cair na piscina. Meia hora depois de nadar, sentei na borda e comecei a observar as pessoas, e também, a própria piscina. Ela, assim como os seres humanos, está dividida em duas partes: rasa e funda. Rasa: para os desacreditados, inexperientes, com pouca ambição. Funda: para os otimistas, tímidos e de altura mais avançada. Bobeira, quem sabe nadar fica na parte funda e quem não sabe – ou não consegue tocar o pé no chão – fica na parte rasa. A verdade – e agora, deixando minha criatividade ultrapassar o palpável – é que há muitas pessoas adultas que nadam na parte rasa da piscina da vida. Não arriscam com medo de se afogar. Alimentam um medo monstruoso de molhar o cabelo, de não conseguir tirar a água do ouvido ou agüentar a ardência dos olhos. E existem aquelas pessoas que simplesmente saltam na água sem saber nadar. Morrem afogadas, quando não, clamam por respiração boca a boca. Às vezes se salvam, às vezes não. Assim como nossas branduras e perversidades se misturam para formar nossa personalidade, precisamos saber à hora de sermos rasos, e a hora de sermos fundos. Não dá para ser apenas uma coisa ou outra. Tudo vai depender do momento. É ele quem determina qual é o nosso próximo passo. Mas cuidado, depois de uma decisão tomada e corpo molhado, na vida – diferentemente de uma piscina – não existe escadinha na borda. Para toda ação há uma conseqüência.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O homem frígido.

Desde que eu me entendo por gente, que eu tenho consciência de que o sexo lidera uma importante parcela de culpa quanto à felicidade de um casal, independente de gênero ou qualquer outra particularidade. Em uma sociedade assim, chegar a conclusão de que há a possibilidade de ser um homem frígido, soa extremamente assustadora. O homem frígido não faz amor, nem sexo. O homem frígido só faz uma coisa na cama: nada. Às vezes, tampouco fica a vontade. Quem fica com a tarefa de guiar é o outro. Certo, existem pessoas que se definem como dominadoras na cama, mas carregar um pedaço de gelo no colo é totalmente diferente de ter poder sobre a outra pessoa. O homem frígido – e deixo bem claro que esse texto também vale para as mulheres frígidas – não quer estar ali. Enquanto solta algumas poucas palavras ensaiadas, a mente voa longe da cama. Um verdadeiro, e literalmente, artista. Mas, ao contrário do que muitos possam achar, eu não acredito que isso seja uma característica, detalhe impregnado na personalidade. Eu acredito em escolhas erradas. Sexo casual com alguém não tão conhecido é algo que pode resultar em mãos e pés atados na cama. Daí você me pergunta: Se o cara não vai se entregar, por que aceitar um convite para uma noitada e nada mais? Coração, meus caros, coração. Quando gostamos de alguém, a razão é rouca. Nunca fui muito fã de desordem, sexo antes do casamento (tão comum nos dias de hoje). Nunca acreditei em lençóis amassados antes do primeiro beijo. O café na cama depois de um sono pesado, esse sim deve prolongar as coisas. Café na cama de um motel, depois de um sexo rápido, é fantasia, coisa de momento. Mas a ingenuidade é irmã do coração esperançoso. Ambas acreditam na ascenção do outro. Ambas acreditam no certo escrito por linhas tortas. E por mais sentimento que exista, na cama não sai nada. Amor sem interesse é o mesmo que comprar um bolo de banana porque o de chocolate acabou: não satisfaz, mas mesmo assim você vai lá e dá uma mordida porque acha que no final das contas não irá fazer diferença, ou que – inexplicavelmente – talvez seja mais saboroso. Pior: achando que você se enganará tão bem que enganará o outro. A constatação da frigidez é inevitável. O toque da boca quente na perna fria entrega o jogo. Assim mesmo, rápido, sem necessidade de pistas, assassino localizado. O motivo? O motivo nem tanto, é uma incógnita. Defendo o frígido porque já fui chamado de um. Não por quem dormiu comigo, mas sim por estranhos. Na palavra deles: eu tenho a feição de quem não pula do precipício. Feição de quem fica sempre na beirada do trampolim, com medo de pular, se entregar. Defendo o homem frígido porque – no meu caso – ele não existe. Não é frigidez ou preguiça, é saber a hora de desistir. É acreditar que uma saída casual possa virar um relacionamento formal. Depois dos primeiros arranhões nas costas, mordida nos lábios, corpo jogado ferozmente sobre a cama, a razão começa a tomar frente de tudo e a conclusão é só uma: merda, daqui só vai sair gemidos e saliva trocada. Corpo esfriando, jogo perdido, mãos colocadas em bolsos de uma calça imaginária, desistência involuntária: não quero só calorias jogadas fora. O outro perdendo tempo, diminuindo a velocidade dos atos, menos beijos, menos carinho, menos mão na coxa: frígido, ele pensa. Posso ser pedra de gelo ou água fervente: cada um terá de mim aquilo que merece.

sábado, 30 de junho de 2012

A culpa é sua por estar sozinho.


Passa o dia reclamando no meu ouvido que não tem ninguém, que não aguenta mais ficar sozinho, que não entende porque ninguém quer algo sério com ele. Eu, que vejo de longe, diria que ninguém quer ele nem pra sexo, quanto mais pra um relacionamento sério. Claro, nunca diria isso, são coisas que morrem no pensamento. A verdade é que a culpa dessa solidão toda, é dele mesmo. É o tipo de pessoa que tem carro, dinheiro e beleza, e no mundo interesseiro - onde bens materiais valem mais que qualquer coisa - que vivemos, é inevitável vermos alguém assim solteiro sem nos questionarmos: por que ele está sozinho? Com todos esses atributos, nem que fosse por interesse - que óbvio, deixo claro que eu abomino gente interesseira - alguém estaria com ele. Depois que eu parei para pensar um pouco melhor, descobri que ninguém conseguia ficar muito tempo próximo dele. De dez pessoas que saíram com ele: cinco disseram que ele só falava asneira, três não paravam de olhar para o relógio e as outras duas cancelaram o encontro porque ele não parava de mandar sms perguntando coisas do tipo "por que você ainda não foi se arrumar? estou te vendo online no chat do facebook". Como se isso não bastasse, a criatura é insegura. Sou gordo demais, sou feio demais, meu rosto é quadrado demais, essa calça não combina comigo, entre outros. Como se isso também não bastasse, a pessoa é mais séria que padre rezando missa. Não acha nada engraçado e não dá uma pausa no assunto sobre a política mundial para falar algo mais informal. O cara é um verdadeiro porre de cerveja quente. Sair com ele por uma noite, é a receita infalível para acordar no outro dia com a cara no vaso sanitário, colocando cada momento da conversa pra fora. Já do outro lado da rua, existem pessoas que não tem culpa  por estarem sozinhas, mas sobre isso eu falo outra hora. Agora deixa eu voltar pra mesa antes que eu receba algum sms desesperado.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Guarda-chuva.




Me relacionar com você foi como aprender a andar de bicicleta. Nos primeiros meses: as rodinhas. Você segurando meu banco com uma das mãos, dizendo está tudo bem, se você cair eu te seguro. Cinco meses depois, você já me dava confiança suficiente para tirar as rodinhas, e até arriscar andar sem uma das mãos. Velocidade máxima, sem medo algum de cair no asfalto e ralar todo o corpo. E todo dia eu inventava uma manobra diferente, uma maneira de te surpreender quase que todos os dias. Até que você foi ficando nem aí. Nem aí para minhas habilidades, nem aí para os meus jantares, nem aí para os meus cafunés antes de dormir, nem aí pra nada. De repente, me vi com medo de descer uma ladeira. De repente, eu não sabia mais se, caso eu caísse, você estaria lá para me salvar de uma queda, de machucar as costas, de ralar o joelho. Hoje, vindo para a faculdade, esqueci meu guarda-chuva de propósito, sabia que você levava um consigo na mochila e esperava que as coisas mudassem depois que você me sentisse mais próximo, minha mão direita e a sua esquerda, quase que uma por cima da outra. Como se segurássemos nosso relacionamento, impedindo a água de entrar e acabar com tudo: com os planos futuros, com o que ainda restava de amor, que pelo menos da minha parte ainda persistia em existir. Você começou a tentar explicar de várias formas que não gostava mais de mim, tentando fazer com que eu entendesse da melhor maneira possível que a culpa não era minha e nem sua, ou da outra pessoa que você conheceu dias atrás.

Você dizia que era normal, que as coisas acabam,
que chega um dia que simplesmente chove e a
chuva acaba levando tudo.
Eu gritando, revidava: 
A chuva só leva terra que é fraca,
casa que não está bem fincada.

E completava logo em seguida, antes que você me interrompesse: demora um certo tempo até as nuvens ficarem cinzas, uma chuva torrencial dessas não cai de uma hora para outra. Então, um pingo driblou a proteção - não sei bem ao certo se era pingo ou lágrima - e molhou o meu rosto. Foi quando eu desisti. Foi quando eu preferi parar de discutir. Foi quando eu pulei da bicicleta enquanto descia ladeira abaixo. Eu sabia que iria me esborrachar no chão, mas que seria melhor pular a ter que bater em cheio no muro. Você? Ah, você continuou. Eu fiquei. O corpo todo molhado, esgotado. A alma toda encharcada, dilacerada. Como sempre, em toda história de amor que eu me meto: sou sempre a parte que termina ensopada.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O hétero água e o homossexual azeite.


          Existe um preconceito contra os homossexuais por parte da sociedade, isso é indiscutível. Mas existe um tipo de homossexual que se coloca acima dos demais a sua volta, e este eu costumo chamar de: o homossexual azeite. Imagine que a água são os héteros e pronto. Compreenderam? O homossexual azeite não se mistura, se auto coloca de lado, se exclui, porque acha que o gosto dele é sempre melhor e mais refinado. Não curte música sertaneja, só bebe absolut com energético, e quando está em uma roda onde existem alguns héteros, sempre faz questão de criticar alguma coisa dizendo: isso é coisa de hétero. O homossexual azeite separa tudo em caixas. Preferências do mundo hétero e preferências do mundo gay.
          Para ele, não é permitido gostar de nada do mundo distinto. Para ele, não é permitido ter muitos amigos que não sejam do seu próprio círculo de orientação sexual igual. E mesmo que você seja gay, um homossexual azeite vai te criticar se você resolver aparecer em uma festa usando blusa social, porque blusa social é coisa de hétero. Se você preferir futebol ao invés de vôlei, sai de perto. A última coisa que ele vai fazer é acreditar em você. Provavelmente vai falar que é só para manter aparências, que no fundo, no fundo, a sua vontade mesmo era de sacar a bola, e não chutar. O homossexual azeite é desprezível, e ao contrário do óleo que conhecemos, não possui nada, nada de bom. Não faz bem a saúde, não fica bem na salada, e se misturado junto com o hétero água, ele vai sempre achar que está por cima.