sábado, 15 de setembro de 2012

Telefone ocupado.

Ler e escrever são minhas válvulas de escape, quando o resto do mundo parece está fazendo o de sempre: se preocupando com si mesmo. Telefones ocupados, fora do gancho, desligados, nenhum santo disponível para ouvir a sua reza. Dúvidas borbulhando em água fervente, e não há uma só alma para desligar a panela. Mesmo que sem opinião nenhuma a respeito, só mesmo para que você se ouvisse e pudesse questionar tudo aquilo que sai da própria boca, indo direto aos próprios ouvidos. O cérebro reagiria, buscaria respostas, respostas sensatas, loucas, outras não tão maduras assim. Mas o ciclo nem se inicia. Fica tudo ali, dentro da cabeça, rodando, rodando, sem nenhum lugar para se esvair, como um rio que não sabe onde desaguar. E a história não se repete? Pensando bem, sempre foi assim. E longe de mim estar aqui querendo me fazer de vítima, ou lamentando qualquer coisa que seja. É que - às vezes - é bom ouvir uma outra opinião que não a sua. Desabafar, contar tudo. Desde as histórias bobas até as mais complexas. Mas o ser humano nunca está inteiramente disponível. Há sempre uma outra conversa, uma outra pessoa, um compromisso inadiável, um celular que não pára de tocar, uma campainha barulhenta. Ninguém dispõe mais de tempo para ouvir ninguém. Puxa, quem diria que em um mundo onde a tecnologia te faz falar com os quatro cantos do mundo, um ouvinte faria tanta falta?

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Se abrir ou deixar pra lá?

Abrir o bico ou deixar a correnteza seguir o percurso sem remar? Dizer para uma pessoa que você está gostando dela é como tentar jogar na mega sena: você parte com o "dessa vez não deu" e pode voltar com um "porra, fiquei rico". O problema de apostar em alguém é que quando você faz isso, automaticamente expectativas começam a percorrer todas as veias. E expectativas frustradas viram feridas abertas. E feridas abertas só se fecham quando bem entendem, você acha que possui poder sobre elas, mas na hora do vamo vê é tudo história pra boi dormir. Você entra no carro e não sabe se dá a partida, se vai até a pessoa, coloca ela contra a parede, e dispara tudo, alivia o coração, finalmente. ou, se fica calado, quieto, esperando o destino fazer o que bem entender com a sua própria vida. Pode-se arriscar perder tudo ao fechar a boca, e pode-se arriscar a perder o que já tem abrindo-a. O que fazer? Em casos assim, sinais não surgem para te ajudar, geralmente, as coisas se tornam é cada vez mais enigmáticas, deixando você cada vez mais e mais confuso, ao invés de ajudar. Se der certo? E se der errado? Isso pode te deixar doido, é sério. E vão me criticar, vão dizer que é falta de amor próprio. não é, não tem nada a ver. Eu sei que o mundo não anda mais tão romantizado quanto já foi um dia, que as pessoas estranham quando ganham flores no trabalho. Eu não quero você pra me completar, pra ser a outra banda da metade de uma laranja. Eu quero você porque você me faz bem, e pronto. O que eu sei é que eu não devia deixar você ir embora assim, como se pessoas fossem copos de plástico que a gente usa e depois pega outro em cima do bebedouro, não, você é taça, você quebra se cair e não pode ser substituída mesmo que comprem uma idêntica. Você é vinho, daqueles bem caros. Carro importado. Suíte presidencial. É o que eu vejo: cara, você é especial.  Quero passar contigo o calor mais intenso da tua vida, o frio mais severo. Assistir as folhas caírem no outono, e voltarem ainda mais belas na primavera. Quero sair mais cedo que você e te deixar dormindo, deixar um recado em cima do criado-mudo: saí mais cedo, não quis te acordar, deixei café pronto na cozinha. Quero discutir, e depois fazer as pazes na cama. Quero te ver - se for inevitável - chorar, e poder estar lá para oferecer meu ombro, ou uma água com açúcar, ou te dar minha mão, ou ficar lá com você sem dizer nada. Quero me despedir de você na porta, te ver sair para encontrar os amigos e ver tv despreocupado, sozinho na sala, por que não? Você está lá fora, sem mim, mas me ama, e é isso que importa. Não quero ser gaiola, porque você não é pássaro. Quero te ver livre, sempre livre. Quero que você esteja comigo não porque eu te completo, mas porque a minha companhia mais a tua é valor dobrado. Eu só queria duas coisas: que você fosse feliz e que eu estivesse lá para poder compartilhar dessa felicidade com você. Eu sei, a gente se acostuma a viver só, mas não precisa ser assim... precisa?

domingo, 2 de setembro de 2012

Ainda nem desfiz a tua cama.

Temos uma semana para nos entrelaçarmos e nos desentrelaçarmos tão rápido quanto começamos. Lidar com o início e o fim prontos de uma história é um tanto quanto angustiante. Dar a vida a esse meio me deixa ansioso, porque o tempo é curto e a vontade de te abraçar toda hora é tanta, que extrapola o normal. O cuidado em não romantizar tudo, e tratar tudo racionalmente é outro ponto complicado. Eu sei, eu sei, histórias assim não foram feitas para ter continuação, e nem foi feita para ser vivida por alguém tão irracional quanto eu. O seu boné ainda permanece aqui entre os meus pertences, sua cama ainda desarrumada de hoje à tarde, nossas lembranças impregnadas em cada dobra do lençol, em cada amassado do travesseiro: o seu cheiro, por todos os lados. Viver isso tudo por uma semana é uma baita injustiça, e mesmo assim um presente. Nos encaixarmos tão bem dificulta tudo, e mesmo assim é uma delícia. Esses e outros vários momentos vão ecoar por tanto tempo, que eu nem sei mais se quero ter que arrumar a sua cama de novo. Resumindo todas essas palavras fajutas em poucas linhas, eu só queria uma coisa: dormir bem e dormir pouco ao seu lado todo santo dia. 

sábado, 18 de agosto de 2012

Me respeite, eu sou um selenita.

Planando, vivendo na ponta dos pés. Cabeça na lua, projeções. Girafas, elefantes, nós dois: apenas nuvens. Se quiseres um pedaço do meu céu, vai ser preciso mais que um guarda-chuva para se proteger de um temporal. Se quiseres conviver com meu mel, vai ser preciso acostumar-se a meu fel. Se quiseres ser o centro da minha terra, corra, Lola, corra, o tempo está passando. Os ponteiros são rápidos, não perdoam, podem te transportar daqui em um piscar de olhos. Se quiseres que eu seja teu Picasso, vai ser preciso mais do que um desenho a óleo. Quero tinta guache, caneta, carvão, lápis de cor. Quero estampar toda a parede do teu quarto, do teu peito, vísceras, coração. Quero ser teu quadro que vale milhões. Nosso amor vai ser visitado, vai estrear em uma grande galeria no centro da cidade. Tinta azul no seu nariz, me aproximo e retiro com a ponta dos dedos. Quem dera fosse assim com a tristeza. Espanar para longe como se fosse poeira. Mas ela é cola, é glitter, impregna, causa infecção, destrói o sistema imunológico. Você está correndo? Não, não há tempo a ser perdido. Atravessa logo essa rua sem olhar para os dois lados, ninguém vive sem correr riscos. O sinal está verde, passa, passa enquanto eu estou aqui esperando, porque depois, ah, sinais vermelhos não voltam no tempo, comigo não tem segunda chance. Faltam poucos minutos, as portas estão quase de fechando. Quando tempo você vai me deixar na intermediação? Entre o sim e o não, entre a guerra e a salvação. Sai, sai de cima do muro que eu tenho um presente: o meu amor. E se você se desfizer dele como faz com as cartas que te escrevo, pode bater a porta e deixar a cópia da chave na mesa. Eu não preciso mais de amores fingidos, promessas batidas, lixo reciclado, palavras forçadas. Eu tenho tudo o que eu preciso bem aqui comigo: a esperança que chega com o dia de amanhã.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Todas as cores.

 Toda mentira é uma sombra. Toda verdade é uma santa. Todo desejo se esconde, na pele, embaixo dos escombros. Toda saudade machuca. Toda dor, um dia, evapora. Toda esperança é uma pistola, às vezes, sem nenhuma bala. De antemão, te aviso: sou o todo. De nada adianta o teu corpo, se o pensamento é em outro. De nada adianta o teu choro, se não é minha camiseta que encharca. De nada adianta as tuas palavras, se no meio do caminho elas são atropeladas. De antemão, te aviso: eu não me dou por vencido. Se eu fraquejo, caio de joelhos, é estratégia de jogo. Se eu não abro a porta quando você chega, é pra nos poupar de uma batalha. Se eu não te encontro às cinco, é porque já estou exausto: de ser esquecido. Deixa o rio secar, os peixes morrerem, a natureza esbravejar. Piso nas folhas secas, nos nossos últimos beijos. Piso no que restou de tudo que vivemos, nos últimos - e poucos - momentos. Piso nas fotos e esfrego com a sola do sapato. Fico de cócoras, cato os pedaços: não, não ficariam bem remendadas em um retrato.

domingo, 12 de agosto de 2012

Não existe dia dos pais.

Coloca no colo, no berço, empurra a bicicleta com rodinhas e depois sem. Coloca a roupinha quando a mãe se ausenta, leva pro clube, dá banho, compra salgado na padaria da esquina. Educa, alimenta, se esforça para estar sempre por perto. Dá o último centavo que tem no bolso pra você inteirar o picolé, gasta o salário inteiro naquele videogame caro, passa fome se for preciso, mas se você está sorrindo, ele sorri também. Se existe alguém que pode completar a gente, esse alguém é o nosso pai.

Foto de Michael (pai) e Vibe (filha), garotinha que morreu ainda criança devido um tumor.

Mãe que faz papel de pai, ou irmão, ou os avós, tios, não importa, quem te atura na adolescência é que merece seu abraço todo santo dia. A gente se conhece mesmo quando não troca uma palavra, um aperto de mão ou um abraço é suficiente, porque amor de pai ampara. Pai é aquele amigo que você decepciona várias vezes mas nunca te vira as costas, e sendo assim, é provavelmente a única pessoa que vai estar com você sempre. Vejo muita gente gastando rios de dinheiro, e eu mesmo gostaria de poder comprar o mundo, enfeitar com um lanço e dar pro meu pai, por que não? Ele me deu a vida, é o mínimo que eu poderia oferecer em agradecimento. Infelizmente não possuo uma conta bancária gorda, mas diferente de um estranho, um pai não liga se você dá meias novas ou um carro, o que importa é o "obrigado por tudo, eu te amo", é passar algumas horas juntos. Dia dos pais é ontem, hoje e amanhã. Para quem já perdeu o pai, essa data dói. Enquanto uns festejam, outros choram pela perda. Então, fica o conselho: passe o máximo de tempo possível que você puder com o seu velho enquanto ele existe aqui no presente, porque o futuro... a gente conhece bem, o futuro é incerto.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Bebi a última gota.

Não minto: fere, feriu, estava ferindo, cicatrizou, a ferida voltou a doer, estanquei, dormi e tudo ficou bem. É um processo, um ciclo, tão natural quanto o bater das asas de uma borboleta. E eu precisava chorar, enraivecer, te ligar de madrugada, me humilhar, pedir pra você voltar, enviar cartas, dedicar poemas, alfinetar. Eu precisava ir até o fim da linha, do poço, achar que não existia vida após você. Eu precisava deitar nos trilhos, desistir, achar que esquecia quando na verdade queria beber ainda mais de ti. Com pena ou devido um sentimento incessante de culpa, você me alimentava a conta gotas. Com medo de ficar só, eu cedia. No desespero a gente não enxerga a insuficiência, perde o valor de si mesmo, se maltrata, invalida: fica a preço de banana. Até que a visão vai ficando mais clara, menos turva. A respiração fica menos ofegante, estabiliza, nada de suor nas mãos ou pernas bambas: o coração não acelera mais. O tempo passou, vai passando, eu vou melhorando, esquecendo de vez, tomando outro rumo, provando de outras bebidas. Você? Ah, você não me desce mais, sinto muito: o gosto que adoçava minha boca, agora amargou.