Não, eu não havia cercado ele no beco e dado três tiros na cabeça. Eu não teria coragem de enfiar sua cabeça na banheira e contar até cem, ou jogá-lo na rua quando um carro estivesse vindo em alta velocidade. Não sou dotado de tal frieza. Ainda assim, fui sensato o suficiente para mata-lo. Dentro de mim. Não sei dizer se foi o orgulho, o cansaço ou o amor próprio. O nome do assassino ainda é uma incógnita. De que importa tal informação? Nada. O que vale é o sentimento de liberdade. Sinto como se tivesse me soltado de uma pedra em alto mar, pedra que não parava de descer, descer, descer, tentando me levar de encontro ao céu. Olha que ironia, não? Meus olhos já não piscavam, e minha boca permanecia entreaberta. Do nada, sem que eu esperasse, fui puxado pelos cabelos, ou pelos braços, não me lembro bem. Senti como se meu estômago estivesse embrulhado, como se nenhum alimento conseguisse ficar tempo suficiente para me dar a energia que eu precisava para ficar de pé. Corria até o banheiro o mais rápido que podia e depois escovava os dentes duzentas vezes. Para tirar o gosto ruim da boca, o teu. Que de início não era ruim, mas depois foi ficando azedo. Peço desculpa. A culpa nunca é só da corda que bamboleia desesperada, mas também daquele que se equilibra nela. Eu achei que era eu, aquele que conseguiria ficar mais tempo. Achei que meus pés eram perfeitos para pisar ali. Não eram. Já era difícil no começo, e alguma coisa me dizia: cara, você vai cair. Fiz-me de surdo. Vou porra nenhuma, respondi. Continuei dando passos difíceis, até que percebi que o outro lado não chegava nunca. Mais uma vez, aquela coisa me dizia: não há nada lá pra ti. Cara, sai dessa. Nunca vou saber exatamente quem me dizia o quê, mas não é que estava certo? Não havia nada. Nadinha. Depois disso, comecei a perceber algo que ainda não havia notado: a corda. A corda bamboleava mesmo quando eu parecia em perfeita sincronia. E ricocheteava mesmo sem eu tomar atitude alguma. Uma coisa estava clara, a corda não me queria ali em cima. Não sabia se girava, se balançava ou se ficava estática. Eu não podia continuar sozinho. Estávamos em dois e eu era o único que me dava por inteiro a ponto de sangrar e achar que aquilo fazia parte do processo de equilíbrio. Falava-se muito em destino, em “isso não aconteceu por acaso”, “tinha que ser assim”. Não tinha. Eu que fui teimoso achando que poderia mudar a situação com a qual eu tinha me deparado. Não podia. Quando, finalmente, me dei conta de tudo isso, eu já estava em queda livre indo de encontro com a rede. Antes de sair, ainda gritei: ESPERO QUE NÃO SINTA FALTA DOS MEUS PÉS. Mas ninguém ouviu. E então, alguns dias depois, passei a não correr mais em disparada até o banheiro. Já não existia gosto algum na boca a ser alterado. Eu estava novo. Novinho em folha.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Cubo de gelo.
Eu sei, eu consigo ver nos seus olhos, Ana. Já disse que não precisa se preocupar. Minha mãe me deu um dos seus vários recados, e eu posso te assegurar que eu estou bem. Não, eu estou ótimo. E não é um daqueles "ótimo", como quando você mente para não ter que alongar uma conversa sem futuro nenhum. Eu realmente estou me sentindo assim. Eu tenho deixado mais de lado minha parte sentimental, aquela que costuma gritar por um abraço no meio da madrugada, ou que pede café-da-manhã na cama. Tenho ocupado meu tempo assistindo filmes, lendo meus livros, bebendo café, escrevendo bobagens, e dormindo, dormindo bastante. Às vezes, coloco meu tênis e saio correndo pelas ruas, mesmo quando está chovendo. Você sabe que correr me deixa mais calmo, menos ansioso, menos triste. É como se eu transpirasse todas as minhas angústias. Ultimamente, não tenho pensado em muita coisa, com exceção da minha vida profissional. Eu tenho ligado cada vez menos para o que as outras pessoas pensam, porque eu sei exatamente o que elas estão pensando, e apesar de elas não estarem nem um pouco próximas da verdade, eu deixo com que elas se divirtam? Brincar de Deus parece confortá-las. Se nem eu sei direito quem sou, imagine um bando de hipócritas. Ah, sabe quem veio me dar lição de moral esses dias? O César. Sim, aquele que trai a esposa e ainda leva a amante para jantar na casa deles, apresentando ela como uma "amiga do trabalho que está passando por problemas no casamento". Não aguento, Ana. Toda vez que eu vou na casa deles, eu tenho vontade de vomitar. Eu sou amigo dos dois, então, acredito que não me cabe a responsabilidade de contar o que eu sei, ou melhor, de falar o que eu vi. É por conta disso que eu acabo preferindo ficar só. Se isolar parece a coisa mais sensata a fazer. É como se não restassem mais pessoas de confiança. Dos dez que abriram a boca para falar sobre sinceridade, nove deles queimaram a língua. O outro foi sincero demais e estragou tudo. O perigo do isolamento é eu acabar resfriando por dentro. Tenho dado um jeito nisso assistindo alguns filmes de drama. Acredito que enquanto eles me fizerem chorar, eu ainda poderei ser definido como um ser humano dotado de algum tipo de sentimento. Lá fora não, lá fora eu já não posso afirmar isso com tanta convicção. Sabe, acho que não vou mais confiar em ninguém. Por que eu tenho que ser o único a ser verdadeiro? Ninguém tem o direito de chegar em você e dizer um bocado de coisa bonita, e depois voltar atrás com um: "esquece, eu estava brincando". Ninguém sabe o que você está passando naquele momento, o quanto poderia estar sofrendo, ou o que passou nos anos anteriores. Ninguém sabe de toda a história do começo ao fim para se achar no direito de se aproximar dessa forma. As pessoas são cruéis, Ana, mesmo quando não querem ser. Mesmo quando acham que não estão sendo. Onde foi parar aquela sensibilidade, aquele cuidado com as palavras? As pessoas não pensam mais antes de falar aquilo que estão sentindo. Parece mais fácil ligar no dia seguinte e enfiar a culpa na bebida, ou na carência, ou em ambas. Ana, você é a única que presta no meio desse lixo humanitário.
Ps: Diga a Bárbara que não se preocupe, e que me envie uma carta. Infelizmente, depois de arrumar o apartamento, acabei perdendo o seu endereço novo.
Com amor,
Caio.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Caio de vidro.
Eu tenho medo, Bárbara. Medo de
que essas coisas façam com que ele mude, ou que ele deixe morrer aquele lado doce
e esqueça como se coça com o polegar o queixo quando se sente inquieto com
alguma coisa. A gente deveria ficar de olho nele, só por precaução. Se ele
sumir, temos de dar um jeito de encontrá-lo o mais depressa possível. Se alguém
se aproximar, teremos de interrogar. Quando ele aparecer de novo e sorrir de forma
explosiva, sugiro que nos preocupemos com seu coração, pois provavelmente ele
terá encontrado um “novo amor”. E a gente sabe o que acontece no fim desses
amores, não sabemos? Bárbara, prometa que vai me ligar a qualquer hora caso saiba
de alguma coisa que eu desconheça. Ontem mesmo estive conversando com ele, e do
nada, sem pausas ou vírgulas, ele desembestou a falar de um relacionamento de
cinco anos atrás. Lamentou profundamente que tivesse acabado, que nenhuma das
pessoas que ele conhecera depois, chegaram aos pés daquele que deveria ter sido
o cara certo. E eu compreendi, de certa forma. Mas em seguida, disse para ele
parar de pensar nisso. Depois, ele veio com aqueles assuntos tristes, sabe?
Pessoas que não fizeram bem para ele, atitudes que ele tomou e se arrependeu
amargamente, e tudo mais, assuntos que você e eu já conhecemos muito bem.
Depois de uma longa conversa – ou melhor, um monólogo dele – parecia que a sua
alegria estava sendo restaurada aos poucos. Mesmo assim, é melhor que fiquemos
alertas. Caio sempre foi uma pessoa amável, mas altamente sensível. E é o
medo dessa sensibilidade ser abatida que me aflige todo santo dia.
Com carinho,
Ana.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Runaway.
Era
fim de tarde quando entrei naquele trem. Fugia de frustrações, mazelas e
encostos. Queria sair o mais rápido dali. Encostei minha cabeça contra o vidro,
e o trem começou a percorrer os trilhos lentamente. Lá fora, algumas pessoas
abanavam lenços brancos no ar. Não deveria ser esse o motivo exato, mas entendi
que lá no fundo elas desejavam paz para aqueles que estavam embarcando naquele
dia. Paz era tudo que eu queria, sabe Deus onde aquele trem me levaria. “Para
qualquer lugar“, disse ao rapaz que me vendeu o bilhete. Eu sei, eu estava
deixando amigos maravilhosos, uma família que não compreendia os meus sonhos,
mas que ainda assim era só minha, e todos aqueles cacarecos que eu colecionei
nesses quase vinte e três anos de vida. Mas era demais. A cada dia que passava,
eu sentia a cidade apertar o meu peito com a mesma força que alguém bate furiosamente
na cabeça de um prego indefeso. As pessoas, sobretudo, não entediam o que eu
queria dizer nas minhas cartas. Elas comentavam pelas costas que eu era um
depressivo insuportável, e que meu único desejo era de que sentissem pena de
mim suficiente para me amarem por compensação. Os amigos, por mais maravilhosos
que fossem, também passaram a não atender mais as minhas ligações, que
aconteciam sempre nas piores horas do dia: madrugada, ou cedo da manhã. E essas
eram as horas em que eu mais precisava de uma bronca, um conselho ou um simples
silêncio. Às vezes, eu só queria desabafar e desligar o telefone, sem esperar
um contra-ataque ou sei lá o quê. Havia sido demitido por falta de interesse,
por passar as horas de trabalho olhando para o teto ou rabiscando em folhas A4,
essas que deveriam ser usadas para imprimir documentos importantes, que sem
seguida, seriam enviados para a diretoria financeira da empresa. Nesse dia,
arrumei minhas coisas lentamente em um caixote velho que encontrei ali na
frente do prédio, e saí sem me despedir de ninguém. Ainda consegui ouvir alguém
pedir “Ei, você pode pegar um pouco de café pra mim?”, mas eu dei de ombros e
entrei no elevador. Não por falta de coleguismo ou interesse, o cara não chegou
sequer a pronunciar o meu nome. “Ei”, minha mãe não seria tão louca assim. Por
falar em família, nesse momento eu consigo imaginar minha mãe transtornada
passando café para o meu pai, enquanto a minha irmã lê a pequena carta que eu
escrevi me despedindo de todos e desejando felicidades. Pedi que não se
preocupassem comigo, e que voltaria assim que meu coração parasse de doer um
pouco. Eu acordava chorando, sem saber se tinha sido culpa de um pesadelo ou da
realidade. Era tanta coisa acumulada, que às vezes me faltavam forças até para
ficar de pé. Sabe como é isso? Você querer estabilizar sua vida nos dois pés e
uma força maior conseguir facilmente te levar a um desmaio? Sentia socos vindos
de dentro, socos vindos de fora, puxões de cabelo e empurrões. Eram as emoções
dando um jeito de gritar comigo, ou a cidade querendo que eu tirasse umas
férias de tudo. Ninguém sabe dos detalhes, e quando digo detalhes, falo dos
diálogos.
Eu sempre resumo minhas histórias dizendo “Não deu”, e invento uma
história irreal sobre incompatibilidade. Nunca disse nada sobre “a gente não
tem química” ou “seu beijo lembra o do meu ex, por isso não vou ficar com
você”. Uma conversa pode doer mais que bater o dedinho na perna da cama. São
justamente essas conversas que me inundam, e não há choro suficiente que me faça
colocá-las para fora, sem que minutos depois, na rua, eu as veja entrando pelos
olhos novamente. Minha memória é fraca, mas meu coração não esquece. Quanto
mais distante o trem ficava da cidade, mais meus lábios começavam a ensaiar um
sorriso bobo. Pisar os pés fora dali já parecia um avanço. Ainda não sei
exatamente se era isso que eu deveria ter feito, mas pela primeira vez na vida
foi algo que eu fiz sem planejamento ou consulta com terceiros. Peguei no sono
com a cabeça encostada no vidro. Acordei em um sobressalto com alguém me
cutucando levemente e dizendo “pode descer senhor, chegamos”. Desci na estação
e nenhum dos rostos me parecia familiar, embora eu tivesse jurado que havia
visto minha prima Cristina vendendo pastéis em uma pequena lanchonete. Meti a
mão no bolso da jaqueta para pegar a carteira, e encontrei um bilhete amassado que dizia em letras desalinhadas:
“Volta logo”. E eu voltaria... assim que estivesse pronto.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Confusões de Ana.
Miguel gosta de Ana. Não, Miguel ama Ana. Ana é uma pessoa com dúvidas. Ana são sabe se retrocede ou se dá uma chance pro futuro. Ana não sabe nem escolher um simples suco. Miguel quer oferecer um futuro que Ana sempre sonhou. Casa no campo, leite fresco e ar puro. Ela não acredita. É sonho? - questiona ela. É só olhar nos olhos do rapaz para saber que não, não é sonho. Mesmo assim, mesmo com todas as provas, cartas, beijos na testa e horas no telefone, ela ainda permanece com a cabeça cheia de interrogações. Ana quer dizer um bocado de coisas para Miguel. Miguel está de malas prontas para viajar e voltar sabe Deus quando. Na verdade, ele volta daqui um mês, mas a vida é tão imprevisível. Ana tem medo de dizer e se arrepender. Miguel tem medo de ouvir e acreditar. Ambos querem um na vida do outro, mas há tantos poréns que o barquinho permanece estático, sem saber se vai ou se fica. Barquinho confuso. Ana quer que Miguel fique. Miguel tem medo de ficar e depois ter preferido ir. Medo de se arrepender. Ela, de perdê-lo e depois ser tarde demais. Ele, de dar espaço e depois não haver mais moradia no coração da moça. Ele está apaixonado. Ela está confusa. Miguel sente como se ela quisesse dar um passo na sua direção, mas algo a impede. Ana sente como se ele fosse a coisa mais certa que já apareceu na sua vida, mas não consegue esquecer o passado. Se eles pudessem recomeçar do zero, tudo seria diferente. Mas aí eles seriam diferentes. Miguel não seria romântico. Ana não seria doce. Ele não saberia diferenciar amor de fantasia adolescente. Ela não saberia identificar o cara certo. Querendo ou não, ambos precisavam das bagagens adquiridas até então. Todos precisamos. Experiências ruins e boas, é disso que o ser humano é feito. Miguel queria que Ana pedisse pra ele não ir. Ana queria que ele ficasse, mas decidiu que não vai intervir. Me espera? - pergunta ele. Sim. - ela responde. Mas Ana é tão confusa.
domingo, 6 de janeiro de 2013
[...]
Juro que dessa vez eu achei que seria diferente. Você, você era diferente de tudo que eu já tinha conhecido até hoje. Juro que dessa vez eu achei que eu poderia me desarmar, deixar alguém se aproximar. E eu estava deixando. Aos poucos, mas estava. Mas a gente tem certeza de tanta coisa que não é, né? A gente sempre entra em um mar achando que sabe nadar, mas nunca lembramos das ondas altas que podem vir e acabar com tudo. Assim, em questão de segundos. Afogando todas as palavras que foram ditas, e qualquer tipo de sentimento que poderia estar crescendo. Juro que dessa vez, eu achei que não haveriam ondas assim. Eu sei que lá no fundo você quer continuar, mas não sabe como. Na verdade, você não sabe quando. Se agora é a hora certa, ou se seria melhor deixar pra daqui uns dias. É tão... ruim. Não se culpe, eu sei que dói em você também. Eu sei que você gostaria que as coisas fossem diferentes. Me sinto tão impotente, insuficiente. Eu queria tanto que você ficasse. Eu queria tanto que a gente voltasse no dia vinte e sete, que o tempo parasse ali. Ou então que o tempo parasse enquanto estávamos ali abraçados no sofá, ou conversando sobre o futuro. Parecia tão certo. Olhar lá na frente e não saber mais se você vai estar lá dói tanto. A certeza saiu de lugar para entrar a dúvida. E nada machuca mais do que uma incerteza. Ao mesmo tempo eu te acho tão doce por se preocupar comigo. Eu queria tanto que você se livrasse das suas bagagens emocionais e achasse um lugar no seu coração onde eu pudesse me instalar. Nem que fosse um quartinho de pensão. Não ligo para palacetes ou banheira de hidromassagem. Você, apenas você me seria suficiente. Assim, com todos os defeitos e qualidades. Com toda a sua teimosia e confusão. Sinto como se já estivesse habituado, como se já tivesse a quem recorrer quando os trovões começassem a gritar lá fora. E agora? Levantar, tomar café, procurar continuar seguindo, desacostumar com as mensagens, as ligações, os abraços, os beijos, as promessas. Esquecer todo o futuro que havíamos criado. Recriar. Recomeçar. E deixar que a dor se dissipe. É, agora eu sei porque chove tanto.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
A última consulta.
Não, infelizmente não dá para voltar no tempo. Reviver romentos. Rever atitudes. Mudar o plano de curso. Infelizmente, não posso trocar as palavras duras que eu usei. Não adianta eu me arrepender. Todo o diálogo está gravado, e eu pro resto da vida terei que conviver com a história do cara que disse tudo ao contrário, que fez tudo ao contrário, que não foi fiel a si mesmo. A história do cara que foi burro e que deixou a razão ensurdecer o coração. Eu, que hoje choro assistindo programas dominicais, já me recusei a enxugar as lágrimas de alguém. Ignorei a dor alheia, fiz pouco. Eu, que hoje coleciono escritas sentimentais, já fui tão frio quanto um psicopata. Tudo isso que veio depois não será apenas uma consequência? Quanto tempo ainda tenho de reclusão até ser solto? Será que eu não tenho sido um bom rapaz? Será que eu não mereço ter a pena reduzida? Quanto tempo até esse gosto ruim de fracasso sair do céu da minha boca? Eu juro, eu tenho tentado ser mais sincero, estar mais atento. Eu tenho pensado mais nos outros do que em mim. E você sabe, eu tenho me ferido bastante por conta disso. Eu tenho rejeitado ser amado com medo de fazer o outro sofrer. Acredite, eu nunca vou fazer isso de novo. Mas eu preciso ser solto. Viver aqui dentro não dá, conviver diariamente com isso é como ter um bracelete apertando meu pulso de minuto em minuto, me lembrando diariamente daquele que eu era. Eu não sou mais assim. Eu venho mudando, a cada ano que passa, e apresentando uma melhora, como o senhor mesmo disse na nossa última conversa. Cinco anos. Doutor, eu já aprendi a lição: não se deve brincar com o sentimento alheio. Hoje, o brinquedo sou eu. Sim, foi opção minha, como o senhor bem sabe. Foi o castigo que eu me dei pra tentar me livrar de uma culpa que me dava ânsia de vômito toda noite. Só que a brincadeira ficou séria. Agora eu não consigo mais fazer outro papel. Eu não consigo mais ver um relacionamento com otimismo, sempre desisto antes de tentar. Tudo por conta do medo. Medo de fazer aquilo de novo. Sabe, eu não quero ter que assistir alguém chorar na minha frente, enquanto eu ignoro e brinco de chutar pedrinhas no chão como se não ouvisse nada. Eu não quero ter que ouvir alguém se declarar e virar a cara como se não fosse comigo, como se não estivesse só eu e ele ali, sozinhos naquele banco de praça. Cansado dessa pele de assassino que eu vesti e não consigo mais tirar. Hoje, se ele me visse hoje, se ele me conhecesse só a partir de hoje, tudo seria diferente. Ele veria que eu não sou uma pedra de gelo. Doutor, depois desses cinco anos em terapia, eu posso dizer com aboluta certeza que eu derreti. Você mesmo balançou a cabeça concordando quando eu disse isso na nossa última consulta. O problema é que ninguém consegue ver isso, inclusive eu.
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